Fotografo que fez cobertura da operação no RJ por 24 horas traz relato sobre os mortos: ‘Corpos sem…’

As imagens dos corpos espalhados pelo chão viralizaram em todo o mundo.

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Por volta das seis da manhã da última terça-feira, dia 28 de outubro, o fotógrafo Bruno Itan despertou com o celular repleto de mensagens. Ele logo percebeu que algo grave acontecia no Complexo do Alemão, comunidade onde cresceu e ainda mantém laços afetivos e profissionais.

Os grupos de mensagens entre moradores já falavam em intensos tiroteios e movimentação policial incomum. Ao verificar as informações, ele compreendeu que se tratava de uma operação de grandes proporções, a maior já registrada na região metropolitana do Rio de Janeiro desde 1990.

A ofensiva policial envolveu aproximadamente 2.500 agentes das polícias Civil, Militar e de unidades especiais. Executada simultaneamente nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da cidade, a ação foi parte da chamada “Operação Contenção”, uma iniciativa permanente do governo do RJ.

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A operação resultou oficialmente em 121 mortos, sendo 117 suspeitos e quatro agentes de segurança, além de 113 pessoas presas. Para o governador Cláudio Castro, a ação foi um “sucesso”, representando, segundo ele, o mais duro golpe já desferido contra a facção desde sua fundação na década de 1970.

No entanto, a mesma operação que foi comemorada pelo governo estadual como uma vitória no combate ao crime organizado é duramente criticada por movimentos de direitos humanos, moradores das comunidades e por profissionais como Bruno Itan.

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Ao saber do tamanho da operação, Bruno deixou a Rocinha, na Zona Sul, onde vive atualmente, e foi até o Alemão. Chegando por volta das 10h, deparou-se com um ambiente caótico: carros queimados, marcas de tiros pelas ruas e moradores visivelmente abalados.

O tiroteio ainda ecoava pelas vielas, e relatos de supostos abusos por parte dos agentes começavam a se multiplicar. O fotógrafo registrou tudo, inclusive a movimentação no Hospital Estadual Getúlio Vargas, para onde corpos eram levados sem cessar. Naquele momento, o número oficial de mortos era 64.

Segundo Itan, a imprensa teve o acesso limitado. Os policiais teriam formado uma barreira e disparado tiros para o alto, impedindo que jornalistas avançassem até a área da Penha.

Mas, por ter crescido na comunidade, ele conseguiu entrar e permaneceu até a madrugada, registrando o desenrolar dos fatos. Durante a noite, iniciou-se a busca por desaparecidos.

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Moradores relatavam a ausência de parentes que haviam saído antes dos confrontos e não retornaram. Foi então que familiares decidiram, por conta própria, procurar os corpos na mata da Serra da Misericórdia, área que divide os dois complexos.

Aos poucos, os corpos foram sendo encontrados e levados até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais vias da região. Itan presenciou a chegada de dezenas de cadáveres.

Segundo ele, os próprios moradores, usando carros e motos, organizaram a retirada dos corpos da mata, levando lençóis para cobri-los. A contagem era crescente. Para Itan, independentemente das acusações sobre os mortos, eram todas vidas perdidas.

A Polícia Civil informou que abrirá inquérito para apurar se houve manipulação indevida dos cadáveres, o que poderia configurar fraude processual. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou que vídeos gravados por câmeras corporais mostravam os corpos ainda na mata, com roupas camufladas e coletes, armados.

No entanto, muitos foram encontrados em via pública apenas de roupa íntima ou roupas simples, o que, segundo ele, indicaria alteração das cenas. Curi sugeriu que os moradores teriam trocado as roupas dos mortos, retirando fardamento e armamento, o que ainda será investigado.

Bruno Itan também destacou algo que o chocou profundamente: corpos com ferimentos incompatíveis com armamento de fogo. Segundo ele, muitos apresentavam sinais de perfurações por armas brancas, como facas.

“Corpos sem rosto, sem membros, desfigurados. Aquilo me marcou profundamente”, relatou. Para ele, foi um dos episódios mais violentos já registrados no país, comparável apenas ao massacre do Carandiru, ocorrido em 1992.

Além do cenário de destruição, o fotógrafo falou sobre o impacto psicológico causado pela experiência. Itan, que já havia documentado operações como a do Jacarezinho em 2021 — até então considerada a mais letal do Rio com 28 mortos, afirmou que nada se compara ao que presenciou neste dia 28 de outubro.

Em meio à repercussão do caso, o Ministério Público Federal (MPF) solicitou acesso ao laudo pericial de todos os corpos levados ao Instituto Médico Legal (IML) e deu um prazo de 48 horas para que os documentos fossem entregues.

Além disso, o MPF e a Defensoria Pública da União pediram que o governo do estado comprove o cumprimento de determinações do Supremo Tribunal Federal, como a utilização de câmeras corporais, justificativas formais para as operações e a presença de ambulâncias nos locais de atuação policial.

Para Bruno Itan, a operação, apresentada como vitória oficial, representa uma derrota social. “Eu te garanto que quando morre alguém lá no tráfico, tem uns dois ou três para entrar de novo.”

Escrito por

Fabiana Batista Stos

Jornalista digital, com mais de 10 anos de experiência em criação de conteúdo dos mais diversos assuntos. Amo escrever e me dedico ao meu trabalho com muito carinho e determinação.