Aos 102 anos, Elizar Moreira Silva realizou um gesto que a filha, Ana Lúcia Ferreira Rodrigues Moreira, esperou por mais de cinco décadas. O lavrador aposentado, natural do Maranhão, reconheceu oficialmente a cabeleireira, hoje com 52 anos, como filha.
Moradora de Ceilândia Norte, no Distrito Federal, ela passou a ter o sobrenome do pai em seus documentos. O reconhecimento ocorreu por meio do Programa Pai Legal, do Ministério Público do Distrito Federal (MPDF).
Criada em 2002, a iniciativa permite investigar e formalizar vínculos de filiação sem custos. Ao longo de 24 anos, aproximadamente 18 mil pessoas tiveram a paternidade reconhecida por meio do programa.
Apesar de sempre ter mantido uma relação próxima com Elizar, Ana Lúcia dizia sentir falta de ver o nome dele em sua documentação. A ausência ganhava peso em situações comuns, como consultas médicas, emissão de documentos e até no casamento.
“É como se eu tivesse um pai e não tivesse ele ao mesmo tempo. Era a sensação minha”, contou. A história começou em 1974, em Itapecuru Mirim (MA), onde Ana Lúcia nasceu. Os pais eram casados apenas no religioso, e, segundo ela, o pai, que trabalhava na zona rural, não dava muita atenção às questões relacionadas à documentação.
Aos sete anos, Ana Lúcia saiu da casa dos pais para estudar na cidade. Depois de morar por um período com uma família, passou a viver com uma irmã. Aos 15 anos, casou-se pela primeira vez e, posteriormente, teve três filhos. Em 2000, mudou-se para Brasília.
Ela descobriu o Programa Pai Legal por meio de uma amiga e procurou o MPDF. Para concluir o procedimento, Elizar viajou do Maranhão até Brasília, assinou a documentação e realizou exames de DNA.
“Eu corri atrás. E meu pai, aos 102 anos, me registrou”, resumiu Ana Lúcia. Agora, outros irmãos também pretendem buscar o reconhecimento. Ana Lúcia é a nona de 12 filhos e foi a primeira a ser registrada pelo pai.
